Truffaut idealizou a obra definitiva de amor ao cinema. Uma homenagem simples e cativante aos olhos de um espectador que deu a sua vida ao cinema. Não há melhores adjetivos para definir a sensação de ver "A Noite Americana", filme que retrata de forma singular os bastidores de um set de filmagem. A dificuldade em realizar e concluir um filme. O inicio da paixão de um cinéfilo, ou as loucuras de ser ator e conviver com isso. Truffaut faz questão de mostrar tudo isso com extrema realidade, mas sem perder o foco. Mesmo que o seu desenvolvimento seja em cima desta base simples, estamos acompanhando um filme que caminha sem perder o rumo. Dúvidas sanadas. Cinema em erupção. Podemos definir o amor pelo cinema? Podemos considerar isso como amor? Qual a importância do cinema na vida das pessoas? Afinal, que raios é cinema? O que é ser cinéfilo?

Truffaut idealiza uma ideia. Faz sua homenagem de forma justa. Porém, trazendo a questão para tempos atuais, podemos considerar nosso amor pelo cinema? Essa pergunta insistente surgiu quando terminei de ver o filme. O motivo disso é pelo simples fato de que a "cinefilia" vem crescendo de forma gradativa entre as pessoas. Cinema antigamente poderia ser visto como algo normal ou dentro dos padrões. Acontece que, de alguns anos para cá, a indústria cinematográfica vem ganhando diversos admiradores e crescendo de forma ascendente. Enquanto o mundo transforma, evolui... O cinema está aqui, vivo. Estranho perceber que tudo acaba, mas o cinema apenas completa o seu ciclo. De certa forma, podemos concluir que o cinema é insubstituível. Assim como o nosso (estranho) amor com ele. Deixando as definições e o sentimentalismo de lado, "A Noite Americana" resume bem esta ideia, mesmo que esteja em suas entrelinhas: O cinema é uma forma de amor. Sempre haverá pessoas apaixonadas por ele, e sempre teremos a vaga de ideia de amar o desconhecido. Sem mais delongas, vou deixar esta discussão para outra hora. Mas fica a pergunta: O que é cinema para você?

"Noite Americana" acompanha os bastidores das filmagens do filme "A Chegada de Pâmela".  O diretor Ferrand (François Truffaut) está cansado. Trabalha durante horas e sente que o seu filme não está bom. "Pâmela" parece ser apenas um rascunho de uma grande obra. O diretor tenta resolver diversos problemas como o do ator Alphonse (Jean-Pierre Léaud) que se encontra arrasado após ser abandonado por sua noiva; Julie (Jacqueline Bisset) que está retornando aos sets de gravações após uma crise séria nos nervos. Ainda temos a alcoólatra Severine (Valentina Cortese) e uma morte repentina de um dos atores que pode acabar atrasando ainda mais as filmagens. Todas as situações são mostradas com uma certa ironia, já que "Pâmela" tem tudo para dar errado, porém, Truffaut dosa as situações de forma surreal trazendo um contexto sério e convidativo. Sem contar na sutiliza em sua homenagem à grandes diretores do cinema como Hitchcock, Bergman, Orson Welles e dentre outros. Ganhador do Oscar de Melhor filme estrangeiro em 1973, "A Noite Americana" é um filme singular e apaixonante sobre o cinema. Um presente de Truffaut para os adoradores da sétima arte.

La Nuit américaine | François Truffaut, 1973