Nunca saberemos, de fato, o que acontece após a morte. Não chega a ser uma dúvida cruel, afinal, sabemos que não há explicação plausível para o feito, apenas sabemos que irá acontecer. "Além da Eternidade" não é um filme que busca explicar a vida após a morte, e sim como lidamos com a mesma. Mesmo que a morte seja um fato irreversível, é bom afirmar que nunca sabemos como lidar com tal situação. Afinal, em que momento a pessoa morre? Quando a ausência começa a ser notada naquele que está sofrendo pela perda? O processo não é fácil, e claro, varia de pessoa para pessoa. Porém, aqui, acompanhamos um processo doloroso e aparentemente sem fim por parte da protagonista. Steven Spielberg faz um verdadeiro estudo sobre a morte, suas consequências e o seu fim.

A história se inicia com Peter Sandich (Richard Dreyfuss), um aviador que combate incêndios florestais. Conhecido por fazer manobras perigosas e brincar enquanto está "no céu", Peter acaba levando a sua namorada, Dorinda (Holly Hunter) a loucura. Nesta primeira parte, Spielberg faz questão de harmonizar os sentimentos. O amor entre Peter e Dorinda é puro, sarcástico e verdadeiro. Com isso, temos uma fina ironia, afinal, estamos (praticamente) acompanhando uma comédia de costumes. Os diálogos sarcásticos entre o casal ilustra muito bem esse fato. Após salvar o amigo, Al (John Goodman), Peter acaba tendo o seu avião explodindo em pleno ar. Peter chega ao paraíso e acaba sendo prontamente socorrido por Hap (Audrey Hepburn), um tipo de anjo da guarda. A missão de Peter é certeira: ser um tipo de inspiração para o jovem piloto Ted Baker (Brad Johnson). Ted, por sua vez, já se encontrava apaixonado por Dorinda desde algum tempo e os seus caminhos acabam se cruzando. Claro, mesmo que Dorinda esteja em pleno luto, um novo sentimento acaba florescendo. Só existe um porém, Ted aceitava os pensamentos inspirados de Peter. Ou seja, acabava tendo um pouco da personalidade de Peter. Então, Dorinda estava se apaixonando por Ted ou tentando reviver o seu romance com Peter?

O triângulo amoroso se forma. Não propriamente, já que Dorinda não esconde o seu amor por Peter, porém, Ted de alguma forma, lhe representava uma salvação. Ted, tirava Dorinda daquele sufoco ou, aquele círculo vicioso em que ela se encontrava. Ted era a vida que Dorinda tanto ansiava. Mas, Peter ainda a amava e ela sabia disso. Ela sentia isso. O romance é pincelado suavemente, sem atropelamentos. O luto de Dorinda é singular, pelo fato do equilíbrio da direção de Spielberg, que sem pressa, fez algo tranquilo, tentando passar uma mensagem única. Dorinda se torna mais que uma personagem, ela é a personificação exata do sofrimento da perda: existem os dias bons e os ruins. Existe a recuperação, mas ainda existem as lembranças. Dorinda reagiu da forma mais natural possível (aquele em que qualquer ser humano reagiria). Além disso, acompanhamos a dor de Peter ao ver a perda da mulher amada. Dorinda tinha perdido Peter para morte, enquanto que ele a tinha perdido para a vida. Era o inevitável, ambos precisavam ser libertos, e assim, cada um segue o seu caminho.

"Além da Eternidade" é um filme bem feito e competente naquilo o que se propõe. Não é um filme sobre explicações, tampouco que aborda a religião (devido ao tema). É apenas uma história de amor, perdas e principalmente: liberdade. Pois, por mais estranho que possa parecer, é isso o que a morte representa: a prisão dos sentimentos. Ficamos tão envolvidos com a situação da perda, que esquecemos que é algo natural que está pra acontecer, esquecemos que ainda temos uma vida pela frente. Não adianta, a morte sempre virá. Não há saída. Enquanto que a direção de Steven Spielberg é competente e inspirada, encontramos também uma bela fotografia, além de uma excelente trilha sonora. As atuações são soberbas, principalmente quando temos uma Holly Hunter em total sintonia com a sua personagem. Claro, tenho que destacar a graciosa participação de Audrey Hepburn na figura de um anjo (algo apropriado, pelo menos pra mim). Tentei explicar, mas só vendo e apreciando "Além da Eternidade" para sentir tais emoções e compreender tudo aquilo o que Spielberg tentou retratar. Sendo assim, impossível não tecer maiores elogios à obra, que é extremamente esplêndida.

Always | Steven Spielberg, 1989