"Nunca fui Santa" é um filme padrão de Hollywood em sua época de ouro. Possui uma grande estrela, cenas memoráveis, um bom roteiro, mas se perde naquilo o que se propõe. Ou seja, em um resultado final, "Nunca fui Santa" pode parecer ser um filme menor, que poderia ter sido melhor. Culpa de apenas uma única sequência, no caso a sequência final que de tão arrastada, derruba tudo aquilo o que o diretor Joshua Logan conseguiu construir com o decorrer do filme. Só quero deixar claro uma coisa: o filme não é ruim, muito pelo contrário, mas como eu disse, acaba sendo derrubado pelas escolhas erradas. Se o roteiro tivesse nos privado de uma sequência tão megalomaníaca, "Nunca fui Santa" seria praticamente perfeito e consequentemente um clássico a ser lembrado. Afinal, o filme tem motivos de sobra para ser algo maior.

Claro que o primeiro deles é a simples presença de Marilyn Monroe. Porém, encontramos aqui, uma atuação segura e completamente diferente daquilo o que a atriz havia demonstrado em filmes anteriores. Esqueça a imagem da loura burra que fez de Marilyn virar um grande mito. Aqui, Marilyn, faz uma cantora que trabalha em uma boate todas as noites. Tem Hollywood como o seu maior sonho, e tenta ao máximo construir o seu próprio destino como uma flecha que traça o velho mapa que ela carrega consigo. Cherie (personagem de Monroe) não é uma garota inteligente e, é oposto daquilo o que é considerado certo; já namorou com diversos homens e tem como meta atualmente dormir o dia inteiro. Coisas que são desprezíveis para o jovem Bo (Don Murray), um cowboy inocente e ao mesmo tempo rude, lida com as pessoas como sempre lidou com os seus gados. Ou seja, temos em foco duas pessoas completamente diferentes, porém, nada se compara com uma coisa. Note que, não temos como protagonistas pessoas perfeitas, muito pelo contrário. O roteiro é feliz ao conseguir driblar o código Hays, que tanto assombrava na época. Insinuações de sexo, diálogos com dupla personalidade e nudez são sutilmente mostradas dentro do contexto do filme.

O panorama apresentado pelo roteiro é abrangente e temos tempo para nos acostumar com Cherie e Bo, duas pessoas distintas tentando encontrar o seu destino. Porém, em algum momento, após uma conversa com o seu melhor amigo, Virgil (Arthur O'Connell), Bo acredita que Cherie possa ser o grande amor de sua vida. Acontece aquela paixão à primeira vista, enquanto que Cherie se limita a sentir uma "atração física". Ou seja, ele se apaixona, mas ela não. O roteiro que desde o começo apresenta sinais de uma dramédia se entrega ao humor ao colocar Bo nos centros de atenções como o idiota que veio do interior e nada conhece da vida urbana. A linha reta para Hollywood se desfaz quando Bo obriga Cherie a se casar com ele, mesmo ela não querendo. Mesmo que seja sutilmente, encontramos traços de uma discussão feminista aqui. Bo, no alto de sua sabedoria, sabe que é o "homem", portanto ele se vê na obrigação de demonstrar isso, em nenhum momento ele percebe que Cherie não foi sequer questionada sobre a atitude do casamento. Simplesmente ele a enlaçou e ponto final. Lembre-se que o código Hays ainda estava na ativa. O "The End" não podia ser diferente.

A direção de Joshua Logan é eficiente, principalmente aliada com o ótimo roteiro de George Axelrod e William Inge. Como eu citei no primeiro parágrafo, o grande problema é a sequência final que destoa do início promissor, mas fica explícita a moral do filme e sua lei sobre o machismo encarnado em Bo. Se fosse mais sutil, seria melhor. Marilyn Monroe aparece mais linda do que nunca e alcança equilíbrio como atriz, assim como o seu parceiro em cena, Don Murray está completamente caricato em cena, mas isso é um grande trunfo, tamanha a inocência do personagem. Bo serve como um contraponto para a leveza dramática de Cherie. "Nunca fui Santa" pode não ter virado um grande clássico e ter todo o reconhecimento que merece, mas é uma obra inigualável e simpática.

Bus Stop | Joshua Logan, 1956