Não há nada que pode se dizer sobre o amor. Tudo já foi dito, retratado e imaginado. De todos os sentimentos, o amor é o mais misterioso: sentimos, mas não podemos explicá-lo. Seu início, sua forma e seu fim são características inimagináveis. Em algum momento você já se perguntou como acontece o amor? Ou, como escolhemos aquele que iremos amar loucamente? Então, volto às questões levantadas anteriormente: o amor é algo estranho: sem sentido, forma ou tamanho. De certo, o "amor" só tem o nome. Questões como essa me vieram à cabeça após rever "Desejo e Reparação", um filme que tem como foco principal o tema "amor", não propriamente já que usa outros sentimentos como base principal. Porém, é inegável, o "amor" está ali, retratado com fúria entre o casal protagonista. E, claro, no terceiro elemento da história.

A história é contada de forma linear, mas usa o flashback como apoio. Mas, o flashback é usado de forma mais complexa e até inteligente. Portanto, digamos que o filme obtém uma linearidade incomum, sem sair do trilho, o diretor conta a sua história com outros toques. Briony Tallis (Saoirse Ronan/Romola Garai/Vanessa Redgrave) é uma jovem incomum para a sua idade. Possui uma imaginação fértil e fazendo um bom uso dela, acaba sendo precipitada quando se envolve em uma estranha situação envolvendo sua irmã, Cecília (Keira Knightley), e Robbie (James McAvoy), o criado da família. A situação, aos olhos de Briony, é algo sujo e decepcionante: Robbie estava sendo acusado de abuso sexual contra Cecília e outra jovem, e Briony afirmando ter visto algo incomum, acaba sentenciando Robbie e consequentemente o romance que ele tinha com Cecília. Os anos passam, Briony cresce e percebe os erros que cometeu e se sente culpada pela separação de Robbie e Cecília. Não posso esquecer que temos como plano de fundo a segunda guerra mundial, ou seja, tudo caminha para o final trágico. A questão dos pré-julgamentos se torna uma vertente dentro da trama.

Briony participou desta ação erroneamente. Deram vazão e crédito para uma mente infantil. Porém, em uma época com poucos recursos, teriam que dar crédito para alguém que afirma ter visto algo indecente. A questão é que Briony não tinha o discernimento necessário para concluir tal afirmação e claro, pensar nas suas consequências. A questão não é a mentira e sim, a verdade omitida. Como saber sobre as verdadeiras intenções de uma pessoa? Como acreditar em algo que possa ter acontecido de forma diferente? Briony presenciou os momentos cruciais de cada situação, porém, enxergou de modo errado (ou aquilo que preferia ver) e teve uma conclusão errada de tudo. Mesmo que Briony tenha resquícios de vilania, já que mais pra frente somos avisados de uma suposta paixão, não podemos olha-la como a grande vilão. Briony fez apenas aquilo o que a sua imaginação fértil lhe permitiu: se basear algo real para criar o irreal. Sua mente trabalha a todo vapor para distorcer a realidade. Em dado momento, é perceptível sua animação em ter solucionado algo ou salvado alguém, quando na verdade ela apenas usou aquilo o que usava para escrever suas peças fictícias. Seus olhos a enganaram. Uma pena que anos mais tarde, ela foi perceber tal erro.

"Desejo e Reparação" além de ter um roteiro como um primor obtém uma parte técnica invejável. A fotografia é belíssima, tem um elegante contraponto entre as duas divisões do filme: a mansão e a guerra. Um espetáculo visual. A trilha sonora acompanha o teor dramático do filme e possui uma singularidade ao utilizar uma trilha como identificação com o filme. Nunca foram usadas com extrema eficiência as teclas de uma máquina de escrever. A direção de Joe Wright é competente, elegante e faz de "Desejo e Reparação" ser essa jóia rara, já lapidada. Foi com "Desejo e Reparação" que Saoirse Ronan se mostrou ser uma das atrizes mais promissoras para o futuro do cinema, demonstrando talento ao encarar uma personagem como Briony. Verdade seja dita, a atriz vem crescendo categoricamente em cada filme que vem atuando. É bom destacar também que a atriz firma mais uma vez a parceria com Joe Wright, já que é a protagonista de "Hanna" (fita de ação que estreou neste ano de 2011). Keira Knightley e James McAvoy em excelentes atuações.

Atonement | Joe Wright, 2007