Não vou fazer aquela brincadeirinha sobre as duas primeiras regras sobre o clube da luta. Pois, preciso falar do clube, afinal, não faço parte e posso falar sobre o clube abertamente. Sim, isso foi uma maneira de tentar burlar as regras. Acho que não deu muito certo, porém, agora não faz a mínima diferença. Esqueça, vamos ao filme. "Clube da Luta" vem de um ano promissor em Hollywood. Talvez o ano de 1999 tenha sido um dos melhores, já que tivemos obras de imenso impacto em diversas áreas, tanto no cinematográfico como em nossa vida. Creio que o medo do mundo acabar no novo milênio, tenha se apoderado dos roteiristas, já que ideias bacanas foram colocadas no papel. Talvez, assim como o personagem de Edward Norton (o homem sem nome, creditado apenas como narrador), eu não esteja deliberadamente em sã consciência. Fazer alusão ao novo milênio, ideias arrasadoras em um blogue medíocre de cinema: a única coisa que posso chamar de meu. Pronto, cheguei a um ponto crucial dentro das questões impostas pelo roteiro: algo para chamar de "meu".

O mundo se modificou com o passar do tempo, evoluiu (obviamente, não é?). Criou-se a sociedade e com ela veio o capitalismo. Até hoje não sei definir diversas coisas, inclusive o capitalismo, porém, creio que esta palavra explica muita coisa. O que seria o capitalismo? Qual o papel do homem dentro do capitalismo? Indiferente a essas questões, o personagem principal está apenas centrado no capitalismo e no seu vício pelo consumismo. Ele trabalha, sofre de uma forte insônia e está viciado em grupos de autoajuda. Vive como um zumbi, ou melhor: segue a cartilha de um cidadão comum. O problema é que isso não é o bastante. Ser comum não era o seu objetivo e viver do (e com) o capitalismo não era o seu sonho de vida. Com isso, Tyler Durden (Brad Pitt) surge como uma salvação. Enquanto o nosso personagem segue a sua vida enfadonha, Tyler segue remando contra a maré. Encantado com esse estilo de vida e devido a alguns acontecimentos estranhos, os dois se cruzam, como um casal vivem se apoiando um ao outro. O personagem tem a vida que sempre quis, tem algo para se satisfazer. Porém, ainda precisava ter algo para chamar de "meu". Marla Singer (Helena Bonham Carter) é o contraponto.

Surge então o "clube da Luta", uma espécie de grupo de autoajuda feito especificamente para homens. Não há dificuldades, basta apenas bater e aprender a apanhar. Não existe ganhadores, tampouco existem perdedores. Eles apenas satisfazem os seus desejos "canibais". Seria o "clube da luta" algo para o nosso personagem chamar de "meu". Seria uma saída fácil para escapar do sistema capitalista? Claramente que não. Afinal, estamos dentro deste sistema, temos regras e deveres. Há uma saída? Tyler Durden não está interessado em pensar nessas perguntas e sabe que não pode lutar contra isso, mas não significa que não pode trazer o caos à tona. O tal clube ganha outra direção. Cria-se um sistema dentro do sistema. Uma forma de anarquia, de provar algo para alguém. O problema é que ninguém conhece os limites. Ninguém enxerga o óbvio. Desta forma podemos concluir como o ser humano, sendo um ser racional, pode ser tão idiota ao apoiar determinadas decisões sem o mínimo do bom senso. Não importava que destruísse vidas que acabaria com os sonhos de alguém, bastava participar e acompanhar a destruição. Ou seja, sempre seremos aquilo o que os outros querem. Basta aceitar uma ideologia sem questionar seu início e suas consequências. Qual o papel do ser humano dentro de uma sociedade capitalista? Simples, basta seguir uma ideologia.

"Clube da Luta" é um exemplo cinematográfico. Funciona como filme, mas não deixa de ser funcional ao instigar a inteligência do espectador. Tem várias ideias que contribuem ao saldo positivo após a sessão (como o pênis que aparece na última cena e em determinadas cenas). A direção de David Fincher é ágil, elétrica, para não dizer genial. Vamos deixar o "genial" para o roteiro, realmente, merece este elogio. Brad Pitt provando (na época) ser um bom ator e começa aqui as suas escolhas certeiras para bons filmes, notem que ultimamente está ficando difícil vê-lo na tela grande. Conseguiu ser o esperado: ser mais que uma promessa. Edward Norton, porém, é o grande destaque. Possui uma ótima atuação, típico ator que nasceu para esta profissão. Uma pena que não aprendeu com Brad Pitt e não vem fazendo boas escolhas cinematográficas. Helena Bonham Carter é tudo aquilo o que esperamos de uma atriz. Estou enfrentando um dragão aqui para encontrar elogios cabíveis a cada um, portanto acredito que tenha conseguido passar a mensagem: tecnicamente falando, "Clube da Luta" é magnífico. Cinematograficamente falando, é esplêndido!

Fight Club | David Fincher, 1999