
No último 10 de outubro de 2008, no distrito de Água Vermelha, aconteceu a exibição do média-metragem “Testemunha oculta” (1969), do cineasta são-carlense José de Oliveira, popularmente conhecido como Zé Pintor. O filme só foi sonorizado agora, quarenta anos após a produção, por alunos e ex-alunos da Imagem & Som. A sessão, além dos milhares de besouros que costumam invadir a região central paulista nessa época do ano, foi acompanhada por centenas de pessoas, entre platéia, músicos da Orquestra Experimental da UFSCar, que executou a trilha sonora ao vivo, e membros da organização do Cine São Roque, projeto de exibição gratuita de filmes naquele distrito. Esse evento fez parte da programação do 2º Contato, festival multimídia em rádio, TV, cinema e arte eletrônica.
A atitude do pessoal da Imagem & Som no resgatar um dos filmes de Zé Pintor é bastante louvável. O resultado da sonorização de “Testemunha oculta”, apesar de já apresentado ao público na última sexta-feira, ainda não é definitivo, afinal resta gravar em estúdio a trilha preparada pela orquestra e acertar alguns detalhes nos ruídos e na dublagem. Esta, por sinal, em vários momentos entrava em conflito com as imagens, como, por exemplo, no excesso de gírias do século XXI nas falas de jovens da década de 1960. Ademais, ainda há que se repensar algumas vozes que não se adequam perfeitamente ao contexto das cenas.
Afora esses poréns, o material mostrado em Água Vermelha corrobora todo o potencial produtivo do audiovisual são-carlense, falando aqui tanto de Zé Pintor como dos alunos egressos da Imagem & Som.
O enredo de “Testemunha oculta”, um suspense no melhor estilo Hitchcock, acompanha as crises de consciência de Carlito, jovem que foi testemunha de um assassinato contra um chefe de jogatina. Por questões que só o desenrolar da narrativa devem elucidar, ele se cala após presenciar o crime. Contudo, surge então um serial killer que passa a apavorar os moradores da cidade.
No decorrer da fita, há o registro de toda a atmosfera que existia em São Carlos àquela época, isto é, roupas, lojas, arquitetura, carros e outros índices característicos dos anos 1960. E os detalhes técnicos cinematográficos, como enquadramentos, decupagem e elaboração de roteiro foram muito bem cuidados pelo diretor, que teve como escola os inúmeros filmes que assistia nas extintas salas de cinema de São Carlos.
Mesmo contando com parcos recursos e tirando muito dinheiro do próprio bolso para levar adiante seus roteiros, Zé Pintor não esmorecia diante das dificuldades, notabilizando-se, dessa forma, por seu empenho e grande criatividade. Só o espectador muito atento percebe que o vulto do policial a passar diante do letreiro da Delegacia num plano de “Testemunha oculta” não é o vulto de um ator, mas sim de um pedaço de papelão recortado como o perfil de um policial.
Outra característica inteligente usada pelo diretor foi apresentar o serial killer através do processo metonímico, fixando-se em detalhes que reiteram e dão fluidez às ações daquele personagem, como os pés misteriosos a se aproximar da vítima e a faca à la “Psicose” usada para os crimes.
O resgate da filmografia de Zé Pintor veio para enriquecer a história cultural de São Carlos e prestar justa homenagem a um artista de empenho quase sobrenatural. Tal resgate, é bom lembrar, vem acontecendo desde 2001, quando o documentarista Eduardo Sá lançou “Zé Pintor: Um olhar sobre São Carlos”, filme que reúne depoimentos e imagens que ilustram a trajetória de Zé Pintor e o cotidiano de São Carlos em tempos passados.